terça-feira, 28 de agosto de 2012

vai

Vai.
E leva consigo minhas lágrimas, meus desamparos.
Fica por lá.
Cada qual no seu canto, nas suas horas.
Vai, e deixa o tempo cuidar de mim. Eu fico bem aqui.
Fico com meus lençóis cheirosinhos, e minha fronha macia.
Fico com meu quarto, meu cachorro, minhas flores naturais, minhas pétalas.
Fico com meus pensamentos e minha alma livre.

Fico com o compasso da minha canção, as semicolcheias do meu coração.
Volto para o tum tum ritmado.
Fico com meus defeitos, minha carência, minhas bobeiras.
Vai, eles não são mais teus. Meus tesouros, eu pego de volta.
Vai que eu fico.
Ficando eu vou.
Para onde não deveria ter jamais saído.





segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Beije-me por favor.



Beije-me por favor.
E seus lábios me colorirão, e seus olhos fecharão os meus. Os meus sonhos terão sentido.
Por favor, me beija. Me tome em seus braços e me proteja!
E ao me beijar, ouvirás sinfonias, sentirás meus gostos, texturas, lerás meus pensamentos.
Me beija.
Me tira da solidão, me mostra os caminhos molhados de saliva e amparo.
Marque o trajeto de sua boca em mim, trilha de pele e suor.
Conquiste-me, beije-me.
Decore o pigmento de meus olhos e o som do meu sussurro.
Meu número de telefone, meus dígitos, os vincos de meus lábios, secos, falantes.
Me beija. Me liga, me procura...
Acarinhe meu peito, me encaixe em seu abraço.
Tome posse do meu cheiro, do meu calor.
Beije-me... por favor.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Aurora

Vai vigiando a aurora.
Pesquisa as gotas de orvalho, nota o recomeço.
Analisa os primeiros raios do sol, toma-os, degusta-os.
O Canto ouriçado do galo, o cheiro do café, o azul manso e avermelhado.
A missa no rádio da vó, o bem-te-vi mansinho só no "vi"...
Nascendo com o dia, renasço.
Esse novo tempo, mais amigo que outrora, me brilha os olhos.
Essa nova vida, esse novo dia...

Vem a brisa bem de levezinho, fazer carinho no cabelo...
Me desperta, e de pé eu eu espio...
Corro com os raios de sol, e eles safadinhos e apressados me passam a vez, correm a minha frente, me impedem de alcança-los. Eu os vejo e os deixo ir... Observo os raios iluminarem as estradas, as matas, os laços, os partos, as vindas.
Vou vigiando a aurora... deixo ela florear no dia...
Vou vigiando o dia, espero ele ser aurora.
Nasço, permito, cresço e crio frutos.
Vou vigiando a aurora.


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Silencio



Silencio.
Deixa que esse beijo dure mais alguns segundos.
Deixa que essa mão acaricie, que esses dedos encontrem, deixa o arrepio gritar miudinho.
Deixa o lábio encontrar o cheiro do pescoço, a lingua passear por entre os ossos, respirações, mamilos.

Silencio!
Deixe que o abraço fale, que a palma no palpitar ressoe.
Falarão os poros, o bálsamo, o azeite, o suor.
Deixa que os olhos cantem, que as lagrimas escorram, que os dentes batam...

Beije.
E no encontro de bocas ressequidas, a sede se sacia.
No aperto interno,intimo, intenso,
o encontro das almas é arte-finalizado.
No contorno dos dois, encontra-se um.
Só um coração batendo.
Palpitando...

Silencio... deixa o coração bater.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Horas em asas

A poesia do cinza céu desperta em minhas lágrimas um cair mais adocicado.
Num mix de perdição e salvação, num "q" libertador indissolúvel que está dissolvido em minha alma, numas asas que insistem instintivamente em abrir....eu deixo...
Acinzentado. Numa beleza morninha, num aquietar de boca, num silenciar de olhos. Um mingau de maizena, doce não intenso.
Eu deixo. Deixo a liberdade comum tomar em mim um propósito cotidianamente eterno.
São horas em asas.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Pra te fazer me amar.

Correria nas asas do tempo e faria volta-lo pra te fazer me amar. Corrigiria os erros, exaltaria os acertos.
Ouviria todas as canções de tua vida, leria teus livros, estudaria seus gostos, seu prato favorito.
Eu me acharia para que você também me encontrasse, sorriria o sorriso da minha essência pra te conquistar. Pra te fazer me amar...
Eu calaria todas as ruas, todos os pássaros, pra te ouvir cantar. Eu cantaria todas as músicas, buscaria todos os agudos, correria nas pautas, evitaria as pausas.
Arrancaria o coração e te daria. Bateria com ele, e ele bateria por você.
Dormiria toda noite ao teu lado, te receberia todo dia em minha casa, te faria morar em minha alma. Deitaria no seu colo pra você me ninar, te ninaria. Na frente da tv, um sofá macio, um abraço quente, uma conversa simples. Pra nos amar.
Uma viajem de fim de ano, uma família.
Um natal, um ano novo...uma vida nova.
Pra te fazer me amar, eu te amo. 
Nos meus atos, minhas palavras, no meu ser eu te espero. Pra você me amar olho o tempo.
Pra te fazer me amar, só me resta esperar.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

todo pai e filho.



Quero o abraço perdido no tempo que deixamos escapar.
Quero a palavra que o silencio me roubou.
Quero um laço, um papo, um espelho.
Quero o gozo da sorte de um amor constante. Quero instante.
Quero a mim, a parte de mim escondida em ti.

Quero desbravar o caminho que me traga de volta ao começo.
Quero quebrar o gelo.
Quero um album de figurinhas, uma linha, uma pipa.
Quero bicicleta.

E quando eu finalmente descobrir por onde anda tudo isso, vou perceber que sempre o tive.
E quando eu cavar e retirar de mim o que sobrou e machucou, descubro em minha essência o amago de ti.
E assim percebo que sou todo pai.
E assim descubro que sou todo filho.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Dona do meu sorriso.



Arranquei o que sobrava. Tudo que era inútil e que me fazia mal.
Incinerei, amassei, pisoteei, picotei e joguei fora.
Lancei fora, vomitei.  Nada de sal de frutas, nada de remedinho de vó ou de chá de boldo.
Já dizia minha mãe: Tem que lançar fora mesmo.
Rasguei as paginas, apaguei os números, não sigo mais nem na rua, nem na lua e nem lá você sabe onde.
E assim, mais uma vez me liberto. Pronto para o novo, para o sorriso e para cantar.
Morrendo de rir de quem resolveu se aprisionar na mentira de si mesmo. Eu continuo escolhendo a verdade.
E ela me faz livre, me faz dormir em paz.
Meu sono é meu.
Minha verdade é minha.
Dona do meu sorriso.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Ausência.




No escuro da madrugada eu bebo tua ausência. E no palpitar doloroso do meu coração me alimento de sua presença em mim. Busco no fundo de minha memória o gosto do seu beijo, faço esforço para não esquecer.
Na confusão da minha cabeça guardo um espaço calmo para nós: uma varanda com mormaço, moscas, flores e taco de madeira. Uma vitrola de canções profundas. Uma ausência tua.
Na ausência te procuro. Uma necessidade de toque, uma saudade do áspero das tuas mãos, um aperto presente no abraço quase esquecido. Um cheiro, um balsamo, um banho.
Uma vontade de cantar. Altero o volume de minhas canções e no calar da madrugada canto com os olhos lacrimejados. Poesia molhada de mim, salgado e doce gotejar castanho.
Quero receita para arrancar dor de coração, alguma garrafada que cure saudade, comprimido contra solidão. Quero um piano de longas notas quebrando o silencio, quero canção de ninar... Quero ombro. Teu ombro que me encaixa, os outros ombros já não me cabem mais.
E assim, deitado no colchão desejo estar deitado no macio de teu corpo, respirando contigo o doce ruído de um sono juntos. E no embalar de pernas constante, sonífero para noites de insônia, adormeço. E enfim nos encontramos, na infinita vontade de não acordar.