quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Menina de luz




Ela nasceu assim. Fascinada pela luz.
Os olhos dela se atraíam de maneira excitante e árdua por qualquer foco brilhante ou iluminado que lhe era apresentado. As estrelas, uma luzinha de lanterna, vaga-lumes, faróis, televisões. Tudo o que afugentava a escuridão atraía a menina. E ao contrário de todos os outros, a luz não incomodava sua retina, a sensação era prazerosa, ela gostava do movimento interior de seus olhos quando tomados pela vasta branquidão de um foco resplandecente. Ela era acostumada com a luz.
“Assim desde menina de colo” – Afirmava sua mãe com expressões de orgulho. Ainda diziam que ela nascera com os olhos bem esbugalhados, abertinhos! Eram olhos especiais, nunca vistos antes, nascidos para a luz. Tinha cores variadas.
Era cor de mel quando a menina acordava, passava o tempo eles ficavam azulzinhos como o céu aberto do meio dia. No fim da tarde esverdeavam e de noite viravam jabuticaba. Quando ela chorava tinha os olhos cinza fumaça e quando sorria era cor de palha. Uma vastidão colorida de olhos de arco Iris sempre abertos mesmo quando dormia. E a luz, a luz atraía.
Ela não gostava da noite. O lampião tinha que ficar aceso, dois, três, quatro... Haja cera de vela! Enquanto não estivesse clarinho a menina não adormecia e quando a luz faltava, ela tremia, gritava, chorava, fazia tudo o que podia pra família correr desesperada atrás de luz pra deixar a casa iluminada.
E a bondade da menina? Ela era santa. Iluminava por onde andava e todo mundo gostava dela. Ajudava os pobres, brincava com as crianças, ensinava os menos inteligentes, corria ajudar os mais velhos. Carregava o peso, limpava a casa, não reclamava.
Ela foi crescendo. E de nada mais comia. A luz a alimentava, ela era feita de luz para a luz. Já mocinha não namorava, não queria. Os menininhos da cidade se encantavam com a beleza da menina, era formosa, sorridente, falava bem! Seria professorinha. Mas ela, só queria ficar olhando as estrelas, o sol e os vaga-lumes a luz era seu marido, suas amigas e sua família. Ficou quietinha, outrora fala bem, agora quase não falava mais.
E a família atordoada com o mistério da menina só rezava, nas missas e procissões por velas iluminadas. Velas, ela gostava das velas, colecionava e toda noite acendia. Velas espalhadas.
E foi num dia de virada de ano. Foram ver a explosão dos foguetes na cidade grande. Ela também foi. Toda de branco, num vestido longo e rodado, feito de renda, lantejoulas, vidrinhos espelhados e luz. Seu cabelo ela loiro iluminado e os olhos naquele dia eram cor de sol.
Estavam na praça, de pé. Já são dez pra meia noite, corre ver os foguetes! Vai começar. E ela quieta estremecia trocando olhares de cumplicidade com a lua. Ela sorria, ria, gargalhava!  E o espetáculo começava.
Faltavam dez segundos para a virada quando em um olhar de despedida a menina sorriu e de leve flutuava. Por mais que tentassem ninguém segurava.
Ela subia para o alto e para longe... Aos poucos seus dedos, lábios, pés e extremidades, tudo se iluminava. A mãe chorava, ela sorria. Ficou resplandecente. É como se todos pudessem vê-la por dentro, como se a alma viesse para fora e a bondade da menina ficasse exposta, como um foco de luz que cega. A luz dela pura e alva era imprópria para essa Terra, era luz para o alto, luz feita para o céu.
E quando no centro do céu, ao lado da lua, a menina chegou tudo se transformou.  Seus cabelos, olhos, ossos, mãos eram estrelas no céu, vermelhas, rosas, brancas, cor de mel.  Ela iluminou a cidade os fogos fluíam dela. Ela explodiu em vasta e densa claridade.
Era meia noite do outro dia. Ano novo.



terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Romântico.


Quanto custa uma viagem para a Lua? Eu te levaria para lá e mais para onde quisesse. Se você me levasse para o seu coração e trancasse a porta.
E também te daria o perfume de todas as flores misturadas, porém para mim, nenhuma delas ofuscaria o seu perfume.
Eu te mostraria as mais belas vistas de todo o planeta, contanto que você não me prive de poder olhar o mais profundo de seus olhos.
Quero uma terra inteira só para nós. E um céu intenso para voar contigo.
Quero uma música de tom Jobim, ou de qualquer tom, se for pra ouvir com você.
Quero aprender a voar, a andar de bicicleta, a dirigir, a ser homem.
Quero pentear o cabelo, deixar a barba do jeito que você gosta e também passar perfume.
Quero a melhor caixa de bombom do mundo (Chocolate da Suíça, Belga. Sei lá!) quero flores colhidas na neve.
Quero o tapete do Aladim, a rosa do pequeno príncipe, quero a fada sininho, quero um olhar desconcertante e apaixonante.
Quero poder te alcançar onde for.
Quero conseguir sofrer as suas dores.
Quero dividir suas alegrias.
Quero tudo isso.
Quero você.





segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Decepção e uma máscara de ferro.

Eu tenho carne. Uma carne fraca, sangrenta, limitava. Sou feita dela.
Eu tenho lágrimas e elas escorrem. E não, eu não sou forte.
Vivo a margem da sociedade, sou umas das piores. Sou a que é apontada, diminuída,julgada. Enquanto os normais riem, casam, são felizes.
Eu? Eu não mereço a felicidade. Felicidade é para os certos, e certa eu não sou.
É a minha imutável natureza. Meu defeito cobre minhas qualidades, e tudo o que era antes fica escondido, o que importa é que se sobressaia: Eu não deveria ter sido assim.
Voce deve estar perguntando: Assim como? Eu respondo: Simplesmente assim. Eu.
Elas escorrem.
E de repente o sentido de tudo vai embora...Começam os questionamentos, invadem, como terceira idade em dia de feira livre:
_ Por que eu? Por que eu não morri? Por que eu sou assim? Deus? Vó? Alguém?
Sim, teria sido mais fácil ter morrido logo. Atropelada naquele acidente, escorregando naquela escada, com um piano na cabeça, um tiro, sufocamento, tomado coragem para pular de uma vez daquela janela sempre tão convidativa. Mas não, estou aqui.
Decepção é meu nome. E fico limitada a isso. Minha história, meus momentos,meu riso, meus gracejos de bebê, minha formatura, minha medalha de honra ao mérito. Eles sumiram, Decepção é meu nome e meu sobrenome. E sigo decepcionando.
Sim, querido leitor, já tive o direito de ser aceita na "turminha dos certos". Isso quando eu vestia uma dura,sufocante e causadora de alergias, máscara de ferro obrigatória do clube. A coçeira era grande. Arranquei a máscara. Oh, como fui bobinha.
Existe um grande numero de pessoas que aceita a máscara. Eles a pintam, enfeitam, fazem de tudo para que ela fique mais bonita. Convivem com os vermes e insetos que a máscara gera. Até gostam deles. Se alimentam deles.
Eu? Deixei a pele respirar. Arranquei a mascara. _ Oh! Que erro!!!- Eles gritavam.
Erro, ser errado. Errado? Quem é errado? Ser diferente. Ah, ser diferente é errado. Coloquem as máscaras! Todos coloquem as máscaras.
Estou sozinha.
Eu e minha máscara. Agora aberta, jogada ao chão.
Ela me persegue. Se arrasta até mim.

E aquele homem? Quem é Ele? Aquele que também tirou a máscara.
Quem é aquele homem que está conosco, os marginalizados, negados, não aceitos pela "turminha dos certos"?
Ele está falando em nosso favor em voz alta! Ele quer nos defender!
Ele defende os "sem máscara"!
Não! Alguém faça alguma coisa....escondam esse homem. Precisamos salva-lo! ............
Tarde demais.
Pegaram o nosso defensor, bateram, humilharam.
Crucificaram.
Que decepção. Quanta coragem....quanto amor.


Algo me diz... que muitas máscaras ainda serão abertas, graças ao sangue desse homem.
Sim, Ele escolheu os fracos.
Ele escolheu os decepcionantes.
Ele me escolheu.
E eu já não me decepciono.
O amor me curou.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Perdoando Deus - Clarice Linspector

O mar


Eu pensei que sabia alguma coisa dessa vida, mas da vida eu não sei nada. E também não sei nada do mar.
Eu achei que não saberia me encontrar, mas me acho todo dia. Só não sei onde está o mar.
Eu cantei nessa vida muitas melodias que achei que não cantaria. Mas ainda não cantei o mar.
                               
 Que dia é dia de achar o mar?

O mar se acha todo dia mas minha pobre almazinha não queria acreditar.
Eu vi o mar da minha vida correndo solto pela casa.
Eu vi o mar descalço na grama, sujando o pé de barro.
Olha lá o mar se melecando de sorvete!
O mar está na esquina esperando o pai chegar.
O mar está na amiga, que não cansade esperar.
O mar está no pomar!
O mar está na boa risada da tarde que chega chuvosa.
Tá no armário, na barata, tá na prosa.
Está pequeno no album de fotografia.
Está menor no choro da menina.
É minuscula joaninha
que passeia em nossa mão,
que é maior que o mar.

O mar está em mim, só falta eu mergulhar.

sábado, 10 de dezembro de 2011

A flor

Se eu fosse flor, eu crescia, e assim a vida ficaria mais bonita.
Crescia na mão de quem trabalha, pro trabalho crescer.
No olho de quem chora, pra regar meu viver.
Na amizade de escola, pra eu durar pra sempre
e na boca de quem conta história.
E eu não morreria, porque flor que é flor, não morre não!
Flor vive mesmo depois de morta, que morta ela não há de estar!!!
Morta é a vida de quem não chora, de quem não come do pé, de quem não gosta de ganhar presente, e nem de doce de vó.
Mortinho da silva é quem nunca tomou chuva, nunca fez música, nunca quis se esconder. E segredo não há de ser:
Flor não morre. Flor renasce.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Engradecido


Acordei assim, agradecido.
Conversei com o travesseiro e com suas penas travessas, papeei com o meu edredon, que estava um pouco atravessado. Deles só ganhei sorrisos, e abraços macios. Agradeci.
Abracei a água ardente do meu chuveiro que massageou lentamente minhas costas e meu pescoço, ela e o companheiro sabonete só me ofereceram frescor e perfume e então, agradeci.
Pude comer pão macio, manteiga cheirosa, café e leite bronzeadinhos e esfumaçadinhos. Senti o cheiro da manhã, me trouxe boas lembranças, sorri e agradeci.
Ouvi Noel, Tom,Elis,Milton e por eles, agradeci. Ouvi a chuva, os pássaros, ouvi conselhos de mãe, de vó, conversa de amigos, ouvi o sermão do padre, ouvi Deus e a Ele agradeci.
O rabo eletrétrico do meu cachorro, o arroz saido na hora, até o despertador chato. Por eles agradeci.
E assim descobri: Agradecer é próprio de quem ama  e quem ama é feliz.
E por ser feliz, agradeci.
Pela felicidade engrandecido, agradeci.
Engrandeci.
Engradeci.

domingo, 4 de dezembro de 2011

O Blues do vento

Assumo minha predileção pelo vento.
Pelas asas abertas, pelo amor profundo, pelas ondas grandes, pelo sorriso largo.
Corro contra e em direção ao vento e ele me leva, me desloca, me transforma.
Assumo minha predileção pelo vento e pelo seu lamento uivoso de quem sempre se desloca.
Deixa o vento uivar chorosas melodias de um blues piedoso e inesperado. Canta com o vento.

sábado, 3 de dezembro de 2011

De Ponta



Sobe na ponta do pé.
Mesmo no risco de cair e diante da possibilidade de errar. Sobe na ponta do pé.
E em cada passo, em cada ponta, os rodopios dos dias lhe farão calejar a alma e a alma cansada de tanta dança, deitará e dormirá em paz.
E no: cinco... seis... sete...oito... da dança da vida, os membros cansados finalmente se encontrarão, se entrelaçarão, se acompanharão.
E nos braços dados dos bailarinos os pares mostrarão que sozinho é chato dançar, e por mais que difícil seja a sincronia de ser realizada, é bem mais gostoso olhar pro lado e ter amigos te acompanhando na dança. Amigos que são Joãos, são Paulos, são Bertines...
E em cada tropeço que o tempo nos permitir cair, em cada de tempo de silencio, de descanso, de pausa, em cada necessidade de parar de dançar, a alma prova que a dança continua. No sorriso, no olhar, nas palavras, no amor. A vida está nos tirando pra dançar...só nos resta aceitar.

Texto para meu amigo João Paulo Bertine, que sempre faz meu coração dançar!

Feito pra acabar.


Leia ouvindo a canção!

Tocou o piano.  Introduziu.

O tempo de hoje me deveras gentil.
Não me choveu e nem me ensolarou, mas assegurou meus segundos outrora relutantes, hoje porém, devoradores.
Os segundos me devoram. Sem pestanejar mastigam minha vida e minha sede de renovação. E eu me acabo no seu abrir e fechar de boca. 
Eu sou feito pra acabar.

Pausa longa, entram vozes, piano toca, violinos…

Não quero mais me economizar, vou acender as luzes e abrir as torneiras. Alimentar-me das dispensas, calçar o vento, vestir os mares: pacíficos, árticos, atlânticos, azuis.
Vou desperdiçar sorrisos, lágrimas e solos de violino.
Vou jogar palavras ao vento, conversar com os bem-te-vis, cantar para o sol, vou falar com o Beto.
Vou enfeitar a parede do meu quarto com estrelas. Quero as maiores!
Vou tirar o impossível pra dançar tango, rumba, tchá tchá tchá. Sim, vou rir com o impossível.
Vou ter uma longa conversa com Deus, sem medo de perder tempo! E para Ele vou dizer sim.
Eu sou feito pra dizer sim!

Intervalos, prelúdios,a canção continua!

E no acabamento de mim mesmo, me restituo, renasço. Para novamente me acabar.
Eu não tenho medo de acabar, perdi o medo de mim.
Deus me orquestrou e eu fui feito pra tocar, fui feito pra acabar e isso nunca vai ter fim.

Toca o piano. A canção acaba.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

A cura


Ele foi embora.
O tempo foi embora enquanto eu procurava os culpados. E ao acha-los, os mantinha, infurcava-os dentro de mim, como comida azeda, como corpo em decomposição, apodrecem, gangrenam.
E enquanto me afogava na culpa, o tempo foi passando…Assistia pela janela a alegria da liberdade. Podia ver os sorrisos passeando pelos parques, pelas ruas.
Eu porém permitia que as vozes da escuridão me mantivessem no cubículo escuro do ressentimento, resumia -me em apenas manter a ferida aberta, numa tentativa inútil de despertar piedade, auto piedade, dó de mim. E a ferida sangrava, e o tempo passava.
Procurava a coragem, ela porém passeava com o tempo a espera do meu despertar. Eu dormia: havia desistido do amor.
Foi quando do alto gritou a voz de um anjo: Despertai! DespertaI! DesperTAI! DesPERTAI! DESPERTAI!
 Ele insistiu, e me carregou pelas mãos me colocando de pé.  A ferida porém sangrava: novo, sangrava velho, sangrava seco e vivo.
Ao me ver despertar, a coragem,que outrora passeava, voltou para a casa e trouxe consigo o tempo. O tempo e a coragem andavam sempre juntos. 
E foi assim: A coragem fez o tempo se derramar sobre as minhas feridas e elas cicatrizaram.
Para a cura:
O tempo: eficaz remédio.
A coragem: grande amiga.
O amor: Há sempre uma chance para ele.
“Não tenha vergonha se queres chorar, tens uma ferida que deve curar.  E se queres olhar adiante, o passado se deve sarar”.
” Tenha coragem e segue lutando! A muito por amar e Deus não pensa em deixar-te”.
“Ainda podes dizer ao amor que sim”
“Sim”

Pra sempre.


Construi uma muralha. Levou tempo.
Talhei pedra por pedra. Fiz muros grossos, pedras resistentes.  Muito tempo.
Busquei das pedras, as maiores. Passou tempo.
E a muralha cresceu. Subiu ao alto, tocou o céu.  Depois de muito tempo…
Porém de tão alta, caiu. E o tempo foi desperdiçado.
No meio do pedregulho, numa infinidade de pó seco e sem vida eis que nasce uma flor.
Ao contrário da muralha, a flor era pequena, frágil.
Suscetível diante de tantas pedras enormes….
A diferença entre a flor e a muralha, é que a flor tinha vida. A muralha era pedra.
Entre vida e pedra, a vida ganhou.
E a flor permaneceu de pé.
Porque é o pequeno que verdadeiramente mostra o céu.
e a vida sempre vence a morte…
e pra flor nascer não se pensa em tempo…
porque o tempo dela é pra sempre.