Todo dia cedo ela me visita, vem num carro descontrolado,
bêbada, louca, instável. Bate em minha porta querendo entrar, grita, esperneia.
Às vezes deixo, às vezes não.
Se ela
entra, me desconstrói. Sai procurando meus segredos, abre meus armários, minhas
caixas, bagunça meus selos, minhas cartas e fotografias. Coloca-os todos para
fora, sem administrar muito, apenas deixa que todos saibam de tudo; Bagunça
meus sonhos, ri dos meus defeitos, pinta minha raiva, grita meu silêncio.
Se não
entra desiste, mas não pra sempre... Fica a cerca, só esperando uma
oportunidade. Já eu, mantenho tudo irritantemente no controle: caixas, selos,
sonhos, cartas. Todos guardadinhos, lacrados.
Sem ela
sou um chato. Só com ela, me descontrolo. Então ela se espalha em mim e dá um
gostinho de si em tudo o que eu faço, ela pinta de cores quentes meus dias
frios, salpica Cury e pimenta nas minhas sopas, meus pratos, meus lábios. Somos
mistura um do outro.
Envermelha meu azul, amarela meu esverdeado. Cores que se completam.
Um equilíbrio
desequilibrado, ela e eu somos um. E ficamos assim, e assim me encontro. Eu e a
louca da minha alma.
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